Parte substancial do que veio a acontecer em termos do Rio Mondego foi possível prever/imaginar desde a tempestade Kristin.
Logo no dia 30 de janeiro, o vídeo (10h35) mostra a fissura para a margem esquerda (Zona dos Casais). A parte menos má é que a fissura do lado direito era maior e já ocorria em três pontos.
O último alerta surgiu por parte dos agricultores [agronobaixomondego] no instagram, sob a forma de desespero, no dia 7 de fevereiro, depois de terem percebido que 85% da capacidade de absorção dos terrenos da margem esquerda já tinha acontecido. Em frente ao Centro Hípico as fissuras vertiam água abaixo da altura máxima. E os "tais" descarregadores de que muita gente fala e pouca gente sabe onde estão?
Do lado oposto, o caudal primeiro, e a junção das peças depois, junto ao pilar da A1, tornavam evidente que a pressão ir fazer uma das partes colapsar.
O objetivo do conteúdo é dar a conhecer um problema recorrente, com uma "cota/quota de desleixo" dos representantes máximos anteriores dos municípios de Coimbra, Condeixa-a-Nova, Montemor-o-Velho e Soure, possivelmente mais despertos para "festividades e vinho verde" e assim, "empurrando" a água com a "barriga".
Conhecer os locais, no terreno - e da nascente à foz -, ajuda a entender o que se passa com as cheias na margem esquerda/Vale Mondego.
A minha ligação, e de outros mais até, é quase umbilical. Atravessei-o a pé com 3 ou 4 anos junto à capela da Sr.ª da Ribeira, em Carregal do Sal, antes da construção da barragem. Nessa altura foi feito do desassoreamento a montante da futura Aguieira. Noite e dia camiões a retirarem areia durante talvez um ano.
Do outro lado do concelho em que habitava, corria o rio Dão - o maior afluente do Mondego -, oriundo de Aguiar da Beira e percorre Penalva do Castelo, Mangualde, Viseu (eles a beberem água de cisterna de bombeiros na Barragem de Fagilde, enquanto Fernando Ruas mandava apedrejar os ambientalistas); Nelas, Carregal do Sal, Tondela e Santa Comba Dão.
E aí vai ele em direção à Foz... (St.ª Comba) » juntando-se ao Mondego, junto à Barragem da Aguieira (Mortágua). Aqui é controlado e só um tremor de terra (ou a tal cota pormenorizada abaixo) com epicentro na Barragem é que seria preocupante para a Baixa de Coimbra, que era "varrida". Aqui é que a coisa começa a ser séria. Tem Penacova nas encostas.
Tal como o Dão não tem controlos desde a origem, junta-se agora o Alva, que vem sem controlo, praticamente, desde a... Serra da Estrela, até Serra do Açor (Arganil) e vem juntar-se ao Mondego, que após passar as "Torres" (do Mondego), apanha ainda com o rio Ceira - o maior afluente do Mondego após a Aguieira, que antes de aqui chegar, inunda quase sempre o Cabouco/Tapada (Ceira).
Aqui podem falar com o JP Simões que conhece esta e outras zonas como ninguém.
Tudo isto é travado onde? Açude Ponte (Máx. 2100m3/s). A partir deste valor fica em risco o próprio açude e a água vai inundar com toda a certeza à direita ou à esquerda do rio e a baixa da cidade.
O rebentamento de um dique, aquilo que provoca é a força de uma massa de água com impacto em tudo que leva pela frente. Corresponde a uma explosão, mas de água. Pessoas como o Rui Curado Silva (Eng. Física) explicam isso melhor que eu.
Em 2001 vi/vivi de perto o que aconteceu. Foi um "abre olhos". Em 2019, o mais recente susto, com um cheia provocada por uma simples ribeira que se encontrava mal limpa.
Os problemas principais (atuais) das cheias do Baixo Mondego relato-os no vídeos, até com alguma exaustão, para a contextualização.
A bacia do Mondego era, às 8:00, a única do continente em situação de risco, com o volume de armazenamento da barragem da Aguieira acima dos 99%, perto do limite de segurança daquela infraestrutura.
Segundo dados do portal InfoÁgua, o volume de armazenamento da Aguieira estava na manhã de quarta-feira, nos 72%, atingindo o seu valor máximo desde o início das inundações no Baixo Mondego, pelas 8:00 quinta-feira, com 99,04%, a uma cota de 124,5 metros.
O nível de máxima cheia da Aguieira é de 126 metros, altura a partir da qual a albufeira não consegue receber mais água e tem de a libertar, por poder pôr em causa a segurança da própria barragem, formando uma força insuportável em tudo que apanhar à frente. "Varria" a baixa da cidade de Coimbra e tudo que estivesse pela frente.

À mesma hora, o caudal que saía da barragem (efluente) estava nos 930 metros cúbicos por segundo (m3/s), ligeiramente inferior aos 958 m3/s registados durante a madrugada.
O volume de afluência tinha vindo a diminuir desde as 21:00 de quarta-feira, quando ultrapassou 1.750 m3/s.

Na bacia do Mondego, continuava em situação de risco (nível vermelho, o mais grave) a ponte de Santa Clara, na baixa de Coimbra, com 4,23 metros.
Em situação de alerta (amarelo) mantinham-se a ponte da Conraria, no rio Ceira (que recebe água do rio Dueça antes de entrar no Mondego), com um caudal superior aos 435 m3/s, e a ponte do Cabouco, mais a montante no mesmo rio, com um caudal acima dos 206 m3/s.
À mesma hora, o caudal na Ponte-Açude de Coimbra situava-se nos 1.982 m3/s, abaixo dos 2.105 m3/s do final da tarde de quarta-feira muito próximo do seu máximo, quando a margem direita do Mondego cedeu junto à ponte dos Casais, (SM Bispo/Coimbra) levando, nessa noite, a um aluimento de terras que destruiu parte do piso da autoestrada 1 (A1) e obrigatório encerramento daquela via.

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